Luiz Mauro (1968, Goiânia, Brasil), é artista autodidata que iniciou sua carreira ainda bem jovem e aos 17 anos recebeu sua primeira premiação. Durante as quatro décadas de sua trajetória profissional, produziu desenhos, pinturas e objetos. No trabalho produzido para a 16ª Bienal de Curitiba parte de arquivos fotográficos realizados em pesquisas e encontrados em álbuns de sua família, tensionando questões sobre passado e presente, memória e realidade, território e identidade, cruzando história, lembranças e imaginações de sua infância e pré-adolescência. Participou de mostras coletivas por todo o Brasil, como da BR 80, em 1991, no Itaú Cultural (DF e GO); III Bienal do Mercosul (RS), em 2003; Brasília, no DF, e Fullgas, no CCBB (RJ, DF, MG e SP), em 2024 e 2025; Horizonte Cerrado, viver no centro do Mapa, CCJF (RJ), recebeu o Prêmio Artista Convidado do Salão Anapolino de Arte, na Galeria Antonio Sibasolly, em 2022, e do Centro Cultural UFG, em 2011. Realizou onze individuais, dentre as quais se destacam sua primeira mostra no MAC/GO, em 1990; na Galeria Macunaíma (RJ), em 1993; duas individuais em Brasília, uma na Funarte em 1996; outra na Referência Galeria de Arte em 2003; uma individual na Maison Européenne de la Photographie, em Paris, em 2015; e no Centro Cultural da UFG, em 2017.
SOBRE A OBRA
“Romaria. Topografia da Memória, do Caminho do Divino, da Fé e da Dor” parte de
arquivos fotográficos produzidos ao longo de suas pesquisas e também de
imagens encontradas em álbuns de família. O trabalho tensiona as relações entre
passado e presente, memória e realidade, origem e identidade, ao entrelaçar
história, cultura e tradição às lembranças e imaginações de seua infância e pré-
adolescência. A obra acompanha o percurso de uma romaria de carros de boi que
parte de uma pequena cidade do interior de Goiás, Damolândia — onde viveu durante a
infância —, até Trindade, onde foi batizado em cumprimento a uma promessa feita
por seu pai.
Trindade se constitui como território de fé no Divino Pai Eterno, cuja devoção teve
origem quando um casal, Constantino Xavier e Ana Rosa, encontrou, às margens
do córrego Barro Preto, um medalhão da Santíssima Trindade. Nesse contexto, seu
trabalho aborda questões como origem, território, saberes, costumes, cultura
popular, ex-votos, pertencimento e a dor inscrita no percurso. A pesquisa se
materializa em diferentes suportes: pinturas a óleo sobre linho, couro marcado com
ferro de marcar boi, cordas de couro (tiradeiras) e brochas suspensas em chifres de
boi.
O boi emerge como elemento central da obra, presente como tema, imagem e
matéria. Aproximo-me desse universo a partir do encantamento das memórias de
infância — da fé, da tradição e do cuidado com os animais —, conectando a linha
que atravessa suas lembranças às linhas que orientam o trajeto dos romeiros,
que chegam ao destino exaustos, mas com muita alegria de cumprir a trajeto de
devoção. Em respeito aos rituais religiosos, também recorreu à imagem da Santíssima
Trindade, presente na catedral de Trindade, símbolo maior da fé dos romeiros.
Ao revisitar essas memórias e acompanhar a romaria, contudo, o artista foi atravessado pela
constatação de que essa fé também envolve dor e sacrifício — não como fim, mas
como parte de um processo de purificação, entrega e propósito, que incide tanto
sobre os humanos quanto sobre os animais.