Fabiana Gabas Kallás (1966, Catanduva – São Paulo, Brasil) é artista visual, formada em Medicina em 1989, com especialização em Cirurgia de Trauma e Endoscopia. Mudou-se para Rochester (NY, Estados Unidos) para complementar a formação médica, entre 1996 e 1998. Durante este período, iniciou sua trajetória artística, frequentando cursos de fotografia no Instituto de Tecnologia de Rochester. As primeiras pinturas surgiram neste período. Desde então, têm incorporado a interdisciplinaridade entre história, ciências e artes.
Possui trabalhos em acervos privados e institucionais no Brasil, Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Holanda e Inglaterra. Entre as exposições recentes, estão SP-Arte (2026, Cassia Bomeny Galeria e Galeria Clima, Pavilhão da Bienal, São Paulo, Brasil) Aspectos humanos, Fabiana Gabaskallás e Stefano Bosis (2025, A Galeria, Estremoz, Portugal), Positions Berlin Art Fair (2025, Flughafen Tempelhof, Berlim, Alemanha), Tratados poéticos (2025, Programa Portas para a Arte da Fundação Bienal do Mercosul, Galeria Clima, Porto Alegre, Brasil).
SOBRE A OBRA
“Seascape: o que nos separa é também o que nos conecta” tem a humilde intenção de criar um registro simbólico sobre a condição humana ao longo do tempo. O mar, retratado como um mosaico de fragmentos sobrepostos, evoca um dos nossos paradoxos existenciais: a distância que gera a necessidade de proximidade.
Nos primórdios da humanidade, o oceano era uma fronteira absoluta, um limite quase místico.
Para as primeiras civilizações, o horizonte marinho era o fim do mundo. Essa barreira geográfica permitiu que a biodiversidade e as culturas se desenvolvessem em isolamento, criando uma pletora de diferentes linguagens e costumes. Sem essa separação inicial, a diversidade não teria tido espaço para florescer.
No entanto, foram as migrações costeiras que permitiram nossa expansão. O mar fornecia desafio e alimento para as jornadas.
A separação física forçou o intelecto humano à inovação: dos instrumentos rudimentares ao astrolábio, o mar nos obrigou a aprender a ler as estrelas para reencontrar o outro lado.
O mar é um mosaico visceral, palco de um encontro profundo e, muitas vezes, violento de realidades.
“Saudades” — palavra tão lusitana e brasileira — nos lembra a separação imposta pelo Atlântico. Milhares de quilômetros de água salgada separavam o colonizador de sua origem e o escravizado de sua liberdade, criando feridas na continuidade das histórias pessoais.
Entretanto, foi este mesmo oceano que transformou o mundo em um sistema integrado pela primeira vez.
O mar tornou-se o condutor de um intercâmbio sem precedentes. E também um co-criador de especificidades e necessidades regionais.
A mistura de cores de diferentes mundos e realidades se fundiu em um mesmo azul oceânico.
O mar também foi usado como arma de isolamento político e militar em bloqueios continentais. A vastidão azul ainda era um lugar de silêncio e perigo para quem o atravessava.
Com o advento do vapor e do telégrafo, a percepção de tempo e espaço foi alterada para sempre.
Os primeiros cabos telegráficos submarinos foram lançados seguindo as mesmas rotas dos antigos galeões.
O mar, que antes levava meses para transportar uma mensagem, tornou-se o meio físico que unia vozes em segundos. O oceano deixou de ser apenas uma estrada e tornou-se um condutor da informação.
Grande parte do tráfego de internet global viaja por cabos de fibra ótica no leito oceânico. Quando clicamos em um link, nossos dados mergulham na mesma água que os navegadores do século XVI exploravam.
Esta obra, fragmentada, sintetiza a infraestrutura invisível da nossa conexão moderna. O aquecimento de um fragmento do oceano gera tempestades em outro continente. O que descartamos em uma margem, a correnteza conecta à outra.
A crise climática é uma conexão incontornável — ela nos une em uma vulnerabilidade comum que ignora fronteiras nacionais.
A independência total é um mito geográfico. Estamos todos conectados e interdependentes uns dos outros.
Ao longo de toda a história, o mar nos ensinou que cada pedaço de terra ou cultura só existe em relação ao outro.
“Somos fragmentos de um único oceano, permanentemente conectados pela mesma água.”