Royce W. Smith retorna ao Brasil para apresentar ao público os conceitos da mostra internacional, que investiga como imagens, tecnologias e narrativas moldam aquilo que acreditamos enxergar
O público da 16ª Bienal Internacional de Curitiba terá uma oportunidade pouco comum: conhecer “Camuflagens” ao lado de seu próprio curador. O norte-americano Royce W. Smith, decano da Faculdade de Artes da California State University, Long Beach, retorna ao Brasil para conduzir uma visita guiada pela exposição, em cartaz na Sala 8 do MAC Paraná, no Museu Oscar Niemeyer (MON), no dia 23 de julho, às 14 horas. A atividade convida os visitantes a percorrer uma mostra que reúne artistas de diferentes países para refletir sobre um dos temas mais urgentes da contemporaneidade: como tecnologias, sistemas de poder e a circulação massiva de imagens transformam nossa percepção da realidade. A Bienal de Curitiba prossegue até 15 de novembro no MON e em outros espaços expositivos de Curitiba e Santa Catarina.


Reconhecido internacionalmente por suas pesquisas sobre arte contemporânea e cultura visual, Royce W. Smith parte da ideia de que a camuflagem deixou de ser apenas uma estratégia militar ou biológica para tornar-se uma condição da vida contemporânea. “A camuflagem tornou-se um mecanismo fundamental de enfrentamento das rápidas mudanças sociais, culturais, econômicas e tecnológicas”, escreve o curador. “A verdade e a realidade são, na prática, montagens construídas a partir de inúmeras suposições.”
Em um eixo conceitual complementar ao LIMIARES, tema central da Bienal, a exposição reúne pintura, instalação interativa, fotografia, vídeo, cerâmica, inteligência artificial e performances para revelar como aquilo que parece evidente frequentemente esconde estruturas invisíveis de poder, vigilância e manipulação.
Entre os destaques está o norte-americano Jason Shulman, que transforma clássicos da história do cinema em fotografias únicas. Para produzir cada imagem, mantém o obturador da câmera aberto durante toda a projeção de filmes como 2001: Uma Odisseia no Espaço e O Mágico de Oz. O resultado é uma única fotografia na qual milhares de quadros coexistem simultaneamente, revelando padrões de cor e luz que permanecem invisíveis ao olhar humano.


Obras de Jason Shulman e Ricky Allman, respectivamente. Fotos: Amábili Gomes.
O norte-americano Ricky Allman aproxima abstração e figuração para construir paisagens que refletem sobre a crise climática, a ascensão de regimes autoritários e as incertezas do futuro. Para o artista, a própria ideia de camuflagem tornou-se uma estratégia de sobrevivência diante das estruturas contemporâneas de vigilância. “Meu trabalho é uma resposta direta aos acontecimentos do nosso tempo”, afirma. Em contraponto à velocidade das imagens digitais, Allman defende a pintura como um lugar de resistência, capaz de “desacelerar o olhar” e preservar uma experiência sensível diante das transformações do mundo.
Também chama atenção a instalação Videodrome, do costarriquenho Alejandro Sánchez. Grandes navios de carga parecem afundar lentamente no piso do museu enquanto televisores de tubo sustentam suas estruturas. A obra lança une comércio global, circulação de mercadorias e sistemas de comunicação para discutir os mecanismos que sustentam o capitalismo contemporâneo e os próprios circuitos de legitimação da arte.
Nas esculturas cerâmicas do norte-americano Christopher Miles, formas orgânicas parecem oscilar entre o familiar e o estranho. Superfícies escorridas, cavidades e protuberâncias sugerem organismos em constante mutação, convidando o visitante a refletir sobre aquilo que permanece oculto mesmo quando está diante dos olhos.


Obras dos artistas Alejandro Sánchez e Christopher Miles, respectivamente. Fotos: Amábili Gomes.
A crítica às estruturas de poder também permeia a obra da artista guatemalteca Regina José Galindo. Em um vídeo de forte impacto visual, ela permanece imóvel enquanto uma viatura policial é completamente desmontada por mecânicos. O gesto transforma um dos símbolos mais evidentes da autoridade em um conjunto disperso de peças, questionando a violência institucional e os mecanismos de controle que atravessam a sociedade contemporânea.
Já o brasileiro Paulo Nazareth parte da migração para discutir identidade, pertencimento e desigualdade nas Américas. Fotografias, vídeos e performances aproximam diferentes experiências de deslocamento humano, revelando como fronteiras geográficas continuam determinando oportunidades, privilégios e formas de existência.
A exposição também apresenta o artista maranhense Thiago Martins de Melo, cuja produção aproxima espiritualidade afro-brasileira, cosmologias indígenas, pintura e inteligência artificial. Logo na entrada, sua obra inédita criada para a Bienal, desenvolvida em parceria com Juliana Berto, o público interage com um sistema algorítmico que funciona como um oráculo contemporâneo, expandindo a pintura para uma experiência participativa que aproxima arte, tecnologia e ritual.
O percurso reúne ainda artistas como Abel Barroso, Bill Burns, Daniel Han, Fidel Fernández, Guillermo Srodek-Hart, Javier Calvo Sandí, Javier Vanegas, Julia Isidrez, Levente Sulyok, Marcos Ramírez ERRE, Mabilón Jiménez, Tavin Davis, Toni Graton, Ángel Poyón, Fernando Poyón, Glenda Salazar, Gonzalo García, Lilian Camelli, Ledania, Diego Masi e Barton Lidice Benes, compondo um panorama internacional que atravessa questões como migração, memória, identidade, colonialismo, tecnologia, meio ambiente e circulação de imagens.
Serviço
16ª Bienal Internacional de Curitiba
Exposição
Camuflagens – visita guiada com o curador Royce W. Smith
Sala 8 – MAC Paraná no Museu Oscar Niemeyer (MON) – Rua Marechal Hermes, 999, Centro Cívico, Curitiba
Dia 23 de julho (quinta-feira), às 14 horas (não é necessário inscrição prévia)
Ingressos
R$ 36 (inteira)
R$ 18 (meia-entrada)
Gratuito
Quartas-feiras e no último domingo de cada mês.
Mais informações
@bienaldecuritiba
www.16bienaldecuritiba.org