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Chiharu Shiota: cartas, memórias e diversidade

30 jun 2026
Foto: Amábili Gomes

Exposição de Chiharu Shiota reúne cartas marcadas pela diversidade de histórias e experiências

A exposição apresenta uma instalação construída a partir de cartas-autorretrato enviadas pelo público, que foi convidado a transformar memórias, reflexões e experiências pessoais em diferentes formas de expressão

Ao caminhar pela exposição, o visitante se vê cercado por fios vermelhos que se cruzam e ocupam quase todo o espaço. Entre eles, estão centenas de cartas que compõem a instalação e ajudam a contar histórias de diferentes pessoas. A sensação é a de entrar em contato com memórias e experiências que, embora sejam individuais, encontram pontos de conexão. Essa é a proposta da exposição “Chiharu Shiota: O Espaço Entre Nós”, que integra a 16ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba e está aberta ao público desde 14 de junho. No Olho do Museu Oscar Niemeyer (MON), a artista japonesa cria um ambiente que convida à exploração e à reflexão, transformando a visita em uma experiência imersiva do público. 

Para construir a instalação, a artista propôs o envio de cartas-autorretrato — textos, colagens, bordados ou outras formas manuais de expressão. A instalação parte dessas produções para refletir sobre identidade, memória e histórias pessoais, revelando universos íntimos que muitas vezes permanecem invisíveis e conectando experiências individuais em uma obra coletiva.

O período para envio das cartas encerrou-se em 5 de junho. Desde então, chegaram cartas de diferentes lugares. Entre os relatos, há memórias da infância, reflexões sobre o futuro e agradecimentos à própria Chiharu pela oportunidade de conectar pessoas por meio da arte. Como a artista costuma afirmar, existe um universo entre cada pessoa. A arte, nesse sentido, abre espaço para que aquilo que permanece oculto encontre uma forma de se revelar.

Cartas de estudantes, artistas, refugiados, imigrantes, idosos e de tantas outras pessoas que aceitaram compartilhar um pouco de si atravessaram cidades, estados e fronteiras até chegarem à exposição. Os autores pertencem a diferentes faixas etárias e tiveram total liberdade para produzir seus autorretratos. O único convite era olhar para dentro de si e traduzir em palavras, imagens ou desenhos aquilo que Chiharu Shiota chama de “mundo interior”.

O resultado é um conjunto de produções tão diversas quanto seus participantes. Alguns abordam inseguranças, medos e incertezas diante do futuro. Outros se dedicaram em registrar gostos pessoais, desejos e sonhos. Há ainda quem utilizou o espaço para revisitar memórias, refletir sobre a própria trajetória ou expressar sentimentos que dificilmente encontrariam lugar em outro espaço para serem falados. 

As lembranças de pessoas e lugares ocupam um espaço importante nesse conjunto. Muitas produções começam com um destinatário específico — “Meu querido…” ou “Para…”. A partir daí, surgem relatos que misturam saudade e recordações de momentos passados. Alguns se debruçaram em escrever sobre passagens marcantes da própria vida, outros agradeceram pelas pessoas encontradas ao longo do caminho e aproveitaram a oportunidade para refletir sobre quem é e quem deseja se tornar. Embora partam de experiências individuais, os relatos revelam sentimentos capazes de atravessar diferentes gerações, contextos e realidades.

Foto: Amábili Gomes

As produções não se limitaram aos textos. Desenhos, colagens e bordados também fazem parte das cartas-autorretrato enviadas para a exposição. Nos trabalhos que utilizam bordado, as linhas aparecem cobrindo partes do corpo, destacando características físicas ou adicionando elementos visuais aos retratos.

Os desenhos seguem diferentes abordagens. Enquanto alguns participantes optaram por representar a própria imagem, outros retrataram episódios de suas trajetórias, pessoas importantes ou atividades presentes em seu cotidiano. As colagens, por sua vez, foram produzidas a partir de recortes de jornais, revistas, livros e fotografias, incorporados às composições como forma de complementar os relatos. Juntas, essas diferentes linguagens ampliam as possibilidades de expressão dos participantes e evidenciam a diversidade de experiências reunidas no projeto.

Identificar exatamente o motivo pelo qual cada tema foi escolhido é uma tarefa difícil. Os detalhes de cada produção também comunicam algo. Uma frase destacada, a escolha de uma cor, um desenho específico ou a forma como as linhas foram costuradas carregam significados que pertencem, sobretudo, a quem os criou. 

Embora cada carta conte uma história única, todas compartilham algo em comum: a disposição de expressar sentimentos íntimos. A proposta de Chiharu Shiota ganha forma ao mostrar que, mesmo separados por distâncias geográficas e realidades distintas, os indivíduos são capazes de se conectar por meio das histórias que carregam. Cada carta funciona como uma janela para um universo particular e permite ao público conhecer a intimidade de diferentes pessoas por meio da exposição, que já pode ser visitada no MON. 

Por Amábili Gomes

Supervisionado por Dani Brito