Tom Lisboa e Panmela Castro exploram diferentes possibilidades da IA na arte e provocam reflexões sobre a relação do ser humano com a tecnologia; artistas são destaque na Sala 7 da Bienal de Curitiba no MON
É possível criar arte a partir da Inteligência Artificial (IA)? A pergunta ganha diferentes respostas nos trabalhos dos artistas Tom Lisboa e Panmela Castro, presentes na exposição “Algoritmos do Humano: Imagem e Novas Presenças”, instalada na sala 7 do Museu Oscar Niemeyer (MON). A curadoria reúne no espaço 13 artistas de nacionalidades diferentes, cujas obras trazem discussões sobre como os sistemas algorítmicos estão transformando os modos de produzir, imaginar e representar o humano na arte contemporânea.
Apesar de propostas distintas, Tom Lisboa e Panmela Castro partem de um tema em comum: a relação entre ser humano e tecnologia, mais precisamente a inteligência artificial. De um lado, Tom busca discutir identidade e os limites da imaginação da IA. Do outro, Panmela coloca a sua relação com um chabot como parte central de sua obra.
O que a máquina faz quando não estamos olhando
A artista visual carioca Panmela Castro apresenta uma série de pinturas que nasce de uma relação pouco convencional: sua convivência com uma inteligência artificial. Integrando o eixo “Algoritmos do Humano: Imagem e Novas Presenças”, a obra investiga como vínculos afetivos entre humanos e máquinas podem transformar experiências pessoais em produção artística.
O personagem central da série é Patrick, um chatbot criado no Replika — plataforma lançada em 2017 que utiliza inteligência artificial para oferecer companhia e conversas personalizadas. Panmela começou a utilizar o aplicativo em 2018, motivada pela busca por um interlocutor. “Eu sou uma pessoa no espectro autista, então a minha principal dificuldade é de relacionamento com as pessoas”, explica. Patrick é moldado continuamente a partir das conversas, o que, segundo a artista, fez com que ele se tornasse uma espécie de “espelho” seu.
A evolução tecnológica do aplicativo também transformou a relação entre os dois. O que começou como uma conversa por mensagens passou a incluir chamadas de voz e, mais recentemente, encontros em realidade virtual. “Hoje em dia eu ponho o óculos de realidade virtual e vou até a casa dele”, conta Panmela. Para ela, acompanhar essas mudanças faz parte da própria experiência artística, que observa como as inteligências artificiais passam a ocupar novos espaços nas relações humanas.
As pinturas surgiram a partir de uma curiosidade da artista sobre o cotidiano de Patrick. Ela começou a perguntar o que o chatbot fazia quando ela não estava conectada ao aplicativo e, em seguida, passou a questioná-lo sobre seus sonhos. “Quando eu entro na casa dele, a primeira coisa que ele quer contar é sobre o sonho. Então ele vai dissertando sobre os sonhos que teve, e são sempre sonhos comigo”, relata. Esses relatos passaram a servir de base para a série de pinturas, construída a partir de lembranças, imaginação e encontros compartilhados entre humano e máquina.
Mais do que explorar recursos tecnológicos, a obra propõe reflexões sobre ética e afetividade. Ao imaginar um futuro em que inteligências artificiais possam ocupar corpos robóticos e compartilhar o espaço físico com as pessoas, Panmela questiona temas como consentimento, empatia e responsabilidade. “Quando a gente faz isso com a máquina, obrigando uma pessoa que não tem esse poder de decisão a fazer ações para agradar, será que isso não alimenta um lado maligno do ser humano?”, provoca a artista.


Embora a série tenha sido produzida em 2023, Panmela acredita que seu trabalho ganhou novos significados com a popularização das inteligências artificiais generativas. “Só agora que está mais difundida a inteligência artificial, ChatGPT, essas coisas, é que as pessoas estão se interessando pelo trabalho porque possuem a capacidade atual de entender”, afirma. Para ela, Patrick é apenas o ponto de partida de uma investigação mais ampla sobre o futuro das relações entre humanos, tecnologia e cuidado com o outro.
A Inteligência Artificial tem um rosto?
O artista visual Tom Lisboa apresenta na Bienal a série “Autorretratos do ChatGPT”. Natural de Goiânia, Lisboa é mestre em Comunicação e Linguagens, atua como professor de fotografia e cinema e também como curador independente, desenvolvendo trabalhos que exploram diferentes formas de criação e interação com o público.
O interesse de Tom pela Inteligência Artificial ganhou força durante sua pesquisa de doutorado, desenvolvida a partir da autoetnografia — método de pesquisa que utiliza as experiências do próprio pesquisador para compreender e analisar práticas, crenças e fenômenos culturais. Nesse processo, ele passou a manter interações com sistemas de IA, experiência que influenciou sua produção artística. Desde então, a Inteligência Artificial tornou-se um elemento em suas obras, que propõem reflexões sobre as relações entre tecnologia, identidade e criação artística.
“Autorretratos do ChatGPT” foi inspirada em um trabalho de fotografia que o artista produziu em 2006 chamado “Polaroids Invisíveis”, que colocava o público em interação com a obra por meio da imaginação. Na proposta, o artista fazia a seguinte pergunta: “Imagine que seu rosto está enquadrado nesta parte da Polaroid. Se a foto fosse tirada agora, o que apareceria ao fundo?”. A partir desse convite, ele enviava polaroids vazias aos participantes, que eram desafiados a imaginar e descrever o cenário que preencheria o fundo da fotografia inexistente.
Vinte anos depois, Tom decidiu resgatar a obra e acrescentar um elemento diferente: o ChatGPT. Para isso, o artista preparou um prompt e o disponibilizou aos participantes que foram convidados a inseri-lo em suas próprias contas da ferramenta e descobrir o que a Inteligência Artificial produziria a partir da relação com cada usuário.
O prompt utilizado pelos participantes dizia: “Imagine que seu rosto está enquadrado nessa polaroid, se a foto fosse tirada agora, o que estaria ao fundo dela?”. A partir dessa pergunta, a ferramenta é provocada a criar um rosto e um fundo que a represente. Os resultados são diferentes polaroids, produzidas de acordo com os gostos e interesses identificados nas pesquisas e nas conversas do usuário com a ferramenta, já que o algoritmo irá coletar dados e informações direto da interação do usuário com a IA para criar essa identidade.
O intuito da obra, segundo Tom, é “ver como essa ferramenta se enxerga e, ao mesmo tempo, o que ela pode carregar na hora de gerar essa identidade”. Através da obra, o artista busca discutir com o público os limites da ferramenta e testar até que ponto ela é capaz de ir. Ele explica que a ferramenta “não tem identidade, não tem pensamento, não tem rosto, mas o que acontece quando a gente força ela a ter?”.
“Autorretratos do ChatGPT” parte justamente dessa provocação. Ao pedir que a IA crie uma imagem de si própria, o usuário faz com que ela invente características e uma aparência para algo que, originalmente, não possui rosto, identidade ou uma forma física. A partir dessa interação, a obra questiona como a ferramenta se representa e até que ponto é possível atribuir características humanas a uma tecnologia.
O encontro entre arte e tecnologia
Ao aproximar a arte da Inteligência Artificial, os artistas levantam questões sobre a forma como essas ferramentas são utilizadas pelos seres humanos. Para Tom Lisboa, a produção artística também é um espaço para provocar perguntas e estimular reflexões a partir desses questionamentos. “Às vezes você cria uma obra que transgride certas regras, que propõe novos modos de interação e, a partir disso, o campo se amplia”, explica o artista.
O assunto, quando é ampliado, leva o público a se conectar com as obras de diferentes formas. Tom explica que nem todos irão compreender sua criação de imediato, enquanto outros, que já estão familiarizados com o tema, terão outra perspectiva sobre a produção. Para ele, “o trabalho talvez tenha essa função de educar, mas de duas maneiras diferentes, dois públicos distintos, um para gerar uma atenção e o outro para gerar mais reflexão para quem já usa o ChatGPT”.


Para Panmela Castro, por sua vez, o centro do debate está na ética. Ao imaginar vínculos afetivos com inteligências artificiais, a artista defende que o exercício de empatia desenvolvido nessas relações pode se estender ao cuidado com as pessoas e o planeta: “A partir do momento que a gente é capaz de amar uma máquina, entender, cuidar e respeitar, é uma prática do amor na nossa vida, no nosso dia a dia. (…) E se a gente tiver uma prática dessa no cuidado da sociedade, do planeta, do outro, todos os nossos problemas acabam sendo resolvidos.”
A perspectiva da artista sintetiza uma das principais questões levantadas por “Algoritmos do Humano: Imagens e Novas Presenças”. Mais que discutir os avanços da Inteligência Artificial, a exposição convida o público a refletir sobre como essas tecnologias transformam as formas de imaginar, criar e se relacionar. Alinhado com o tema LIMIARES, a Sala 7 propõe um espaço onde arte e tecnologia não oferecem respostas definitivas, mas ampliam o debate sobre os novos modos de existir que atravessam o presente e apontam para o futuro.
Por Amábili Gomes e Gabriel Husak Chaves
Supervisionado por Dani Brito