SOBRE A EXPOSIÇÃO
O artista Abraham Votroba tece cartografia íntima sobre onde a memória se desdobra em gestos poéticos e silêncios reverberantes. A exposição opera como diálogo entre ausências e permanências, explorando o tempo congelado, que escapa à imagem, um intervalo do mundo, um entretempo entre o coração e o olhar. As obras funcionam como equivalentes sensíveis de afetos que resistem à linearidade. São lampejos de saudade, vestígios de encontros, marcas de um sol que, mesmo invisível, aquece narrativas esquecidas. Votroba trabalha com a porosidade da lembrança, traduzindo em formas concretas a fragilidade do que é guardado ou perdido. Uma foto desbotada ganha volume, palavras são suspensas em fios translúcidos, sombras projetadas recriam paisagens interiores. Aqui, estratégia da dupla exposição se revelam método e metáfora: é a superposição do agora, do antes e do depois; do que foi sobre o que é, do que desejamos sobre o que vimos. É o lugar onde dois momentos, dois corpos, duas luzes, ocupam o mesmo espaço. A fotografia se expande para que o instante se desborde, não cabendo em apenas um enquadramento apenas, mas deslizando em sequências que pedem para ser tocadas, lidas, vividas. O título, Me quedé mirando, captura esse estado de suspensão contemplativa, o ato de estar olhando, plácido na sobreposição de camadas de tempo. Nesta rede, cada nó é instante capturado, cada vazio memória necessária. Nessa tessitura, a poesia apresenta alma para imagens, a linha de união entre o visto e o sentido. Sombra, rastro, intervalo, silêncio que escreve. A exposição convida o espectador a não apenas observar, mas a se deter no olhar, a tatear as ausências, descobrindo que lembrar é, em última instância, um ato de reinvenção contínua.
Curadoria: Guilherme Zawa
Artista: Abraham Votroba